
Já era tarde quando acordou. Ao abrir os olhos e observar toda a desordem de seu apartamento a qual já lhe era rotina, viu que seria mais um dia como todos os outros. Teve vontade de voltar a dormir, pois só assim não precisaria pensar, porém, não o conseguiu. Preparou-se então para o ritual de todos os dias, acendeu o cigarro e pegou uma cerveja, a última coisa que ainda preenchia a sua geladeira, tão vazia quanto a sua vida. Foi então, que seus demônios já vieram lhe fazer a companhia diária de sempre. Demônios, que tanto lhe perturbavam e assombravam, demônios, ou somente lembranças, como preferir. Eles simplesmente a desorientavam tirando-lhe as minúsculas forças a qual tentara com tamanho esforço conseguir, levando-a para o ritual de todos os dias. Cartão de crédito, sem fundos obviamente, e o pó branco espalhado pela mesa. Enquanto separava-o em carreiras, tentava pensar em uma maneira de conseguir se livrar do maldito vício, de conseguir seguir em frente, de tentar voltar a viver de verdade. Mas não, os demônios não deixavam, com aquela dor cravada em seu peito tornava-se impossível esquecer aquele que a deixou. Carreiras separadas, bem definidas e alinhadas, era hora de começar de novo. Uma, duas, três, quatro, cinco. Não era o suficiente, não por hoje. Seis, Sete, Oito, Nove. Suas pernas já não lhe obedeciam, a adrenalina tomava-lhe conta. Quando estava assim, gostava de se olhar no espelho, ver suas pupilas dilatadas lhe suavam como um poder. O poder do esquecimento. Mas aquilo não estava tão forte quanto queria, os demônios ainda estavam em sua mente, precisava livrar-se deles, precisava pensar em outra coisa, precisava alucinar. Lembrou-se daquela seringa, a qual havia jurado nunca mais usar. Mas o que são juramentos para quem já não tem dignidade? Preparou a heroína, sim, essa seria literalmente a sua heroína. Dose dupla, pois precisava matar os demônios, já não podia mais conviver com eles. Sua mão tremia, sua boca estava seca e seu coração batia forte, mas nada que lhe impedisse de furar-se. Ao sentir a heroína entrando em seu corpo, finalmente pôde livrar-se dos demônios, eles haviam sumido, sua mente esvaziara-se e o tão sonhado silêncio estava tomando conta de seu ser. Enfim, livre. Pena é que essa liberdade tenha-lhe custado a vida.